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22/01/12 ás 12:23

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Carta de desabafo do pai do jovem que morreu afogado há poucos dias na praia de Atalaia

Presumo que deixarei de lado a minha modéstia de pai coruja. Meu filho Arthur Cury da Costa Castro, de 18 anos e quatro meses de idade, era uma dessas pessoas que a morte deveria ter levado para bem depois do fim das cores do Arco-Íris, onde antigamente se dizia existir um encantado pote de ouro.Puro de coração,não fazia acepção de pessoas, não pôde e nem quis conhecer os atalhos da maldade, nem a concupiscência da vida.

Desde pequeno demonstrou de forma cabal o grande homem que não chegou cronologicamente a ser. Teve, no entanto, tempo  suficiente para superar a si mesmo, e ser maior do que muitos de nós. Hoje eu penso que um anjo de pernas tão longas, braços tão compridos, olhar tão doce,tudo isso só  não poderia ser senão um sinal perfeitíssimo muito próprio de quem  soube amar  as maravilhas criadas pelas mãos invisíveis do Eterno.

Ainda criança, percebia a miséria alheia bem antes de ter a  consciência de que vivia num país inseguramente desigual.Levei-o diversas vezes ao Theatro 04 de Setembro, à época em que ele pensava que os atores moravam por detrás das cortinas vermelhas.Mostrei-lhe várias casas antigas do centro da amada Teresina, para indicar que ali ou acolá moraram,décadas atrás, pessoas ilustres da nossa cidade, ou até mesmo mostrar as casas mais simples onde ali vivera outras tantas personagens, que nunca serão mencionadas pela sanha devoradora da mídia tebana.

Tinha eu o maior orgulho de sair com ele e os  irmãos para os lugares mais chiques e mais bregas da Cidade Verde.Apresentei-os a quem encontrava pelas ruas e veredas do meu coração.Lembro-me muito bem de vários episódios que agora, nesta hora aguda da minha existência, me fazem verter as mais ardentes lágrimas que um pai pode chorar de saudade de um filho que partiu, mal haviam surgidos os primeiros raios de sua dourada  existência.

No início do novo milênio,quando levei o DVD do filme “O Corcunda de Notre-Dame”, notei que ficou em silêncio com as cenas trágicas,  e que abrira um largo sorriso nas cenas engraçadas de um dos personagens mais marcantes da universal literatura francesa.

Adorava as muitas vezes em que eu pegava na sua cabeça, e dizia:  “quem quer a coroa”? Para designar uma brincadeira inventada por mim, e que ele dava sonoras gargalhadas. E logo ele vinha à frente: “Eu quelo,papai”.E ficava rodando que nem um pião, enquanto a minha mão também o rodopiava pela sala.Sem ainda articular bem as palavras da língua de Camões, chamava borboleta de “iêta”, formiga de “fubica” e almoçar de “albochar”.

Hoje, ao completar 15 dias de seu falecimento, posso afirmar que é triste mandar rezar a missa em sufrágio de sua alma, como foi arrasador para a mãe comprar a roupa para vesti-lo, as flores para enfeitá-lo e escolher o local sagrado do sepultamento.Ganharia e depois doaria toda a fortuna do mundo se pudesse tê-lo  novamente ao nosso lado.

Depois da de Cristo, a maior e mais dolorosa via-crucis, é visitar o túmulo de um filho. A sensação de desamparo, ao sair do cemitério, é pior do que ordenar o fechamento do caixão. Bem sei que morte faz parte da vida. Porém o sentimento de deixar o local santo é um fantasma que me espanta de um modo singular e sussurante como se apresenta.É como se eu o deixasse ao relento,abandonado à terra seca, ou o entregasse aos desígnios da soberana lua  da meia- noite.

Foi necessária esta dura e inesperada separação para saber que o problema da morte não é  o coração de alguém simplesmente deixar de pulsar, mas a ausência do vivo , que ,agora inerte,não distingue mais o dia da noite, o frio do quente, o som do silêncio, a aurora do pôr-do-sol.

Quem morre leva uma considerabilíssima vantagem em relação aos vivos que deixou. Meu filho Arthur agora pode voar no céu desafiando as barreiras das leis da gravidade, atravessar as paredes do tempo e a poeira das galáxias, contemplar do alto a dança dessas singelas palavras de um pai órfão de filho. Que posso eu escrever mais diante de tamanha grandeza? A não ser ter a plena convicção de que o encontrarei, sabe Deus quando, num belo dia,no outro lado do Paraíso.

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Fonte:Chico Castro / Portao do sertão

Foto: Divulgação

Edição: Walter F. Fontenele /Portalphb.com.br


 

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