Carta de desabafo do pai do jovem que morreu afogado há poucos dias na praia de Atalaia
Presumo
que deixarei de lado a minha
modéstia de pai coruja. Meu
filho Arthur Cury da Costa
Castro, de 18 anos e quatro
meses de idade, era uma dessas
pessoas que a morte deveria ter
levado para bem depois do fim
das cores do Arco-Íris, onde
antigamente se dizia existir um
encantado pote de ouro.Puro de
coração,não fazia acepção de
pessoas, não pôde e nem quis
conhecer os atalhos da maldade,
nem a concupiscência da vida.
Desde pequeno demonstrou de
forma cabal o grande homem que
não chegou cronologicamente a
ser. Teve, no entanto, tempo
suficiente para superar a si
mesmo, e ser maior do que muitos
de nós. Hoje eu penso que um
anjo de pernas tão longas,
braços tão compridos, olhar tão
doce,tudo isso só não poderia
ser senão um sinal perfeitíssimo
muito próprio de quem soube
amar as maravilhas criadas
pelas mãos invisíveis do Eterno.
Ainda criança, percebia a
miséria alheia bem antes de ter
a consciência de que vivia num
país inseguramente
desigual.Levei-o diversas vezes
ao Theatro 04 de Setembro, à
época em que ele pensava que os
atores moravam por detrás das
cortinas vermelhas.Mostrei-lhe
várias casas antigas do centro
da amada Teresina, para indicar
que ali ou acolá moraram,décadas
atrás, pessoas ilustres da nossa
cidade, ou até mesmo mostrar as
casas mais simples onde ali
vivera outras tantas
personagens, que nunca serão
mencionadas pela sanha
devoradora da mídia tebana.
Tinha eu o maior orgulho de sair
com ele e os irmãos para os
lugares mais chiques e mais
bregas da Cidade
Verde.Apresentei-os a quem
encontrava pelas ruas e veredas
do meu coração.Lembro-me muito
bem de vários episódios que
agora, nesta hora aguda da minha
existência, me fazem verter as
mais ardentes lágrimas que um
pai pode chorar de saudade de um
filho que partiu, mal haviam
surgidos os primeiros raios de
sua dourada existência.
No início do novo milênio,quando
levei o DVD do filme “O Corcunda
de Notre-Dame”, notei que ficou
em silêncio com as cenas
trágicas, e que abrira um largo
sorriso nas cenas engraçadas de
um dos personagens mais
marcantes da universal
literatura francesa.
Adorava as muitas vezes em que
eu pegava na sua cabeça, e
dizia: “quem quer a coroa”?
Para designar uma brincadeira
inventada por mim, e que ele
dava sonoras gargalhadas. E logo
ele vinha à frente: “Eu quelo,papai”.E
ficava rodando que nem um pião,
enquanto a minha mão também o
rodopiava pela sala.Sem ainda
articular bem as palavras da
língua de Camões, chamava
borboleta de “iêta”, formiga de
“fubica” e almoçar de “albochar”.
Hoje, ao completar 15 dias de
seu falecimento, posso afirmar
que é triste mandar rezar a
missa em sufrágio de sua alma,
como foi arrasador para a mãe
comprar a roupa para vesti-lo,
as flores para enfeitá-lo e
escolher o local sagrado do
sepultamento.Ganharia e depois
doaria toda a fortuna do mundo
se pudesse tê-lo novamente ao
nosso lado.
Depois da de Cristo, a maior e
mais dolorosa via-crucis, é
visitar o túmulo de um filho. A
sensação de desamparo, ao sair
do cemitério, é pior do que
ordenar o fechamento do caixão.
Bem sei que morte faz parte da
vida. Porém o sentimento de
deixar o local santo é um
fantasma que me espanta de um
modo singular e sussurante como
se apresenta.É como se eu o
deixasse ao relento,abandonado à
terra seca, ou o entregasse aos
desígnios da soberana lua da
meia- noite.
Foi necessária esta dura e
inesperada separação para saber
que o problema da morte não é o
coração de alguém simplesmente
deixar de pulsar, mas a ausência
do vivo , que ,agora inerte,não
distingue mais o dia da noite, o
frio do quente, o som do
silêncio, a aurora do
pôr-do-sol.
Quem morre leva uma
considerabilíssima vantagem em
relação aos vivos que deixou.
Meu filho Arthur agora pode voar
no céu desafiando as barreiras
das leis da gravidade,
atravessar as paredes do tempo e
a poeira das galáxias,
contemplar do alto a dança
dessas singelas palavras de um
pai órfão de filho. Que posso eu
escrever mais diante de tamanha
grandeza? A não ser ter a plena
convicção de que o encontrarei,
sabe Deus quando, num belo
dia,no outro lado do Paraíso.
