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Escritor parnaibano faz ensaio sobre a obra de Daniel Glaydsob Ribeiro

Diego Mendes de Sousa. Arquivo Pessoal

O livro Pulsão da língua (Mirada, 2021) versa sobre a linguagem instintiva da poesia. Daniel Glaydson Ribeiro é experiente nas letras e faz a sua estreia com um rico discurso sobre o duradouro e o fugaz, entre o chão poético dos seus espantos e o arcabouço teórico da sua vivência.

Sua consciência crítica sobre o mundo provém de uma sabedoria reproduzida em seus próprios ideais contestadores do voraz capitalismo, da crueldade da civilização e da alarmante injustiça social, pois “mortal antes de tudo é a memória”. O eu lírico se refaz após o esquecimento, “de ruínas invisíveis / que se comem”. Esquecimento ou deglutição, semiofagia?

A voz literária de Daniel Glaydson Ribeiro está à espreita de inúmeros elementos experimentais. Seu ritmo segue fragmentado como uma sangria desatada no inconsciente, que se amplia com forte vigor humanista a desaguar no abismo dos silêncios, em “mística-terra d’eternidade”.

Estudioso da poesia de Jorge de Lima, Daniel preserva em sua dicção a atmosfera sobrenatural das cousas. Guarda também a magia precisa da beleza. Emociona-me versos fantásticos como estes: “mete os dedos dentro // dos cabelos das ondas // e as unhas na nuca do mar”.

A fruição das imagens inventadas por Daniel perpassa pela sensibilidade, também por aquilo que é íntimo a um autêntico poeta: a migração sonora das metáforas e o incêndio renovador da alma encantada.

O cume da obra, a meu ver, carrega uma forte herança dos Modernistas de 22 e dos Concretistas paulistas. Com leveza e ressurreição, ecoam Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

Há um poema de Daniel Glaydson Ribeiro cujo título me causou uma excessiva atração. Trata-se da peça “1”, da seção “Pulsão arcaica”, que esboça um relicário frasal remoto, de imensa delicadeza: “Oiço uma ventania”, que desperta sensações de origem, muito conceitual e elegante, por causa da inesperada e incomum variação da palavra “ouço”, posta com tanta precisão.

Esse poema em comento é uma obra-prima, bem escrito, inspirado, revelador, tecido por mistérios, por uma energia cabalística bucólica e chamuscado por uma imagética profunda, com evocações sedutoras para um tempo de essência, traduzido em deserto, sede, miragens, terra, areal e Deus.

“e o que sinto, se sinto

é que Deus, Deusa, se existisse, se existe,

perene, passa, sequios’ e sopra.

e não há nada, entre nós,

a ser dito.”

O jogo com o inefável é espetacular. Versos finais inebriantes, verdadeiramente indizíveis, sublimes.

Pulsão de língua está dividido em cinco atos que dialogam com as dores do ser. Daniel Glaydson Ribeiro reserva a alteridade como uma deliciosa característica de busca rumo ao prazer estético, mesclando os idiomas existenciais às estações oníricas da vida terrenal.

Sua originalidade está no salvamento da fala e no manejo extraordinário do arrebatamento ascético: “Só muito depois compreendi // que esta ventania constante // já é Tua Voz, // num simples sopro sempiterno.”.

Com os seus barulhos e excessos, Pulsão de língua promove o ruído das vozes que habitam as iluminações imprescindíveis da tradição e inova pela via do ressurgimento de outras veracidades, como a reconstrução do movimento anímico e a consolidação de uma linguagem singular.

Daniel Glaydson Ribeiro nasceu no Piauí, em 1985. Poeta, crítico literário e tradutor de Paul Valéry. Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP). Pulsão de língua é o seu livro de estreia.

Diego Mendes Sousa é poeta piauiense. Advogado e Jornalista. Filho da Parnaíba.
Daniel Glaydson é poeta piauiense, critíco e tradutor de Paul Valéry


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